Depois do Carnaval, As Cinzas

clock in the wall

QUARTA-FEIRA, RUA DOS CAETÉS – “Há oito horas daqui, onde estão suas pernas que não me esquentam há mais de uma semana?”

Quer me matar? É só me dizer! Ficar longe de ti (não que eu seja possessivo) não é uma das melhores coisas do mundo. Entendo que, se eu lhe privar das suas vontades, não estarei sendo um cara muito sensato – muito menos uma pessoa simpática –, mas compreendo que é necessário; mesmo torcendo o nariz.

Merda, por que você está longe? Quero você aqui! Os lençóis já estão trocados, a comida já está no fogo e a bebida no congelador. Até me privei de dormir na “nossa cama” – estendi no chão do quarto o primeiro colchão vazio que encontrei em casa –, para não impregná-la com o meu suor; antes mesmo que seu cheiro perfume o nosso leito.

“… Há quase sete horas daqui, onde estão os seus olhos que ainda não iluminaram o meu caminho?”

[...]

Se o sono viesse, os pés não aqueceriam, as mãos seriam frias e a boca secaria… Ah, a língua calaria.

A respiração ao longe não seria forte e, em meus braços, a calmaria.

O coração acelerado ditaria um ritmo lento e racional, frígido, e por que não?

Se o escuro te deixa com medo, a luz vem dos seus olhos… Se o chão é vergonhoso, a cobertor nos enche de orgulho… Breve sussurro, foi tudo em vão.

Não fui bandido, também não sou herói, tampouco navegador…

Apenas um coitado… Sem pudor.

Futuro do Pretérito

blazing

“Ei, onde você está? Procurei-lhe em toda a nossa casa, mas nós nem tínhamos um teto sobre nossas cabeças. Achei você em meus livros e li as tramas e tragédias que sofremos. Encontrei você em meus discos e escutei quando você disse que não iria mais voltar… Mas como era mesmo a canção? Sua essência se fazia presente em nossas crianças, e a tristeza naqueles pequenos olhos me fizeram querer morrer. Ora, o bom Deus não nos deu nenhum filho… Aquela sua presença ainda se mantinha nas fotografias, eu as incinerei.”

Onde eu estou com a cabeça? Minha desventura deveria se parecer comigo e minhas verdades vividas. Nunca houve algo tão estranho assim na minha vida. As remotas situações, apesar dos pesares, nunca aconteceram. Meus sonhos nunca foram tão capazes de criar uma figura teatral e dantesca como esta. As fantasias conseguiram somente me viciar em desejos felizes e hipócritas. Isto acima passa a ser o final trágico de uma ilusão que eu criei.

Mas, como por uma peça pregada pelo destino (ou, seja lá quem for o culpado dessas situações), tudo acima escrito me ocorreu. A Lei de Murphy, novamente, se fez presente em minhas desventuras. Deixe-me explicar. Há muito tempo eu havia escrito estes devaneios, mas por falta de algum nexo com a minha vida e sentimentos, até aquele momento, não achei conveniente publicar. Entretanto, se os primeiros parágrafos são exatamente o que me foi acometido, talvez eu possa sonhar algo que é agradável… Agora eu tenho por quem sonhar.

 “Nossa casa não é exuberante, mas nós conseguimos ser felizes. Meus livros ficam na cabeceira do seu lado da cama e seus discos completam a minha coleção na nossa estante. Os papéis de paredes são os pôsteres dos nossos Rockstar’s favoritos, e nossos retratos… Aaah, nossas crianças correm pela casa enquanto você dança descalça ao redor da sala… E, quando a valsa termina, você vem até a mim e, assentando junto ao sofá, me abraça até eu me perder em seus braços. É domingo, nós não precisamos de mais nada.”

Eu sei, é totalmente ridículo… Mas já imaginou como foi torturante ser o coadjuvante da trama anterior a essa? Escrever algo totalmente desastroso e esperar por um milagre que este não aconteça? Mas, inesperadamente, tudo se torna real. Sonhar com os pés no chão é o que eu poderia ter feito, mas, vivendo longe da razão de ser feliz, é muito difícil ser racional… E essa alma, por quem eu sou irracional, é feliz também – é o que ela sempre me diz, toda vez que quer me contar seus sentimentos… Ou eu estou enganado? Espero que não.

Respostas

hold on hands

Por que você gosta de mim? Mesmo sendo insensível, não correspondendo suas formas de afeto.

Até mesmo sendo sarcástico e usando seus problemas como forma de humor. Diga-me! O que te faz gostar de mim?

Será que sou algum romântico a moda antiga e me desconheço? Será que a loucura te invadiu e você perdeu a razão?

Será que o meu modo arrogante é uma virtude no seu mundo? Por que eu fico pensando em você o final de semana inteiro?

Por que a minha vida se resume em te ter, te consumir, me envolver a ti? Por quê? Por que andamos de mãos dadas pelas ruas da cidade?

Por que você compartilha a sua vida comigo? Por que saímos, rimos, voltamos para casa e nos (nus) possuímos?  Meu Deus, por quê?

Segunda-Feira: A Noite dos Indigentes

RUA DOS CAETÉS – É noite (?)… Meia-noite e nenhuma alma viva ali embaixo. É muita pretensão minha ansiar a mesma algazarra vespertina voltasse agora. Ainda mais, seria muita hipocrisia desejar o desespero de minhas leituras. Enfim, a primeira frase serviu somente como abertura de meu aleatório e tedioso diário. Bom, não é preciso relatar que em plena segunda-feira a vida social (de uma grande parte) das pessoas se mantém reclusa. Algumas (ou várias) pessoas têm receio de não despertarem a tempo no horário previsto para suas respectivas ocupações trabalhistas do dia seguinte.  Mas também é cidade baixa, alguém precisa estar bem motivado para se embriagar nos bares que habitam aqui (Rua dos Caetés).

Como por um espasmo da Lei de Murphy, para meu momentâneo desespero, o silêncio foi quebrado. E, até mesmo evitando correr em busca de visualizar da cena, não contive meus impulsos de curiosidade. Por alguns segundos, antes da materialização da visão, pude encenar que algum derradeiro jovem se agitava por um completo efeito alcoólico. Enfim, não era, nem por algum momento, um adolescente. Quando chego à janela, eu vejo correndo de uma forma desesperada, um mendigo (fiz assim a minha dedução no instante em que vi vestes daquele indivíduo). Ele atravessou, numa audácia, as esquina das ruas dos Caetés e Guaranis. Embora eu não avistasse nenhum motivo para se manifestar assim, aquele homem fez tudo de uma forma bem proposital.

Aos gritos, “Para, não mexe na minha comida” e “Cê tá maluco, doidão?”, ele (mendigo) desceu mais alguns metros de rua até a banca de jornal, onde eu não pude mais o avistar. Fiquei imaginando se aquele homem estaria entorpecido de alguma substância que o fizera conversar com bancas de jornal. Afinal, aquele descamisado não era desconhecido para mim. Recordo de eventuais ocasiões em que eu me deparava com o “astronauta” discutindo com um poste – que, na imaginação do indivíduo, era Eike Batista -, e em outras situações, ele simplesmente incorporava um locutor esportivo.  Enfim, ignorei tudo aquilo que tinha acontecido e comecei a observar o céu; as nuvens e a ausência de estrelas.

De repente, ouço duas pancadas e aquele homem volta a gritar – “Sai daqui, demônio”. Outra pancada foi seguida de um latido – Mas como assim? Nunca em minha vida eu imaginaria que um mendigo mediria forças com um cachorro. Aliás, é estranho pensar que, em simples três meses morando nesta vizinhança, eu nunca tinha avistado sequer um animal abandonado nessas proximidades; ainda mais, um com pedigree fuçando o lixo. Pobre poodle, não tem mais o conforto de uma casa e, muito menos, os carinhos de seu dono. E agora? Viverá à margem do sistema disputando seu alimento com outros seres vivos sem alguém que olhe por ele? Quanta ironia.

Estereótipos Alimentares do 3º Mundo

Fila

AV. DO CONTORNO – Aquele local se torna especial durante os dias úteis da semana. Não só pelo intuito daquela instituição situada ali, mas por um todo que a envolve. A semana começa e somente as primeiras horas bastam para que pessoas se satisfaçam naqueles refeitórios. Necessariamente, não são todos os usuários que são necessitados da ajuda que os Restaurantes Populares oferecem. Fazem-se presentes, ali, aquelas pessoas que não têm o que comer; mas também, há aquelas que possuem as dispensas fartas de comida e que a reservam para “ocasiões especiais”. Embora eu venha relatar, até o momento, de algo que é de caráter social-econômico, não farei deste artigo um palanque de um discurso político. As características peculiares é que me motivaram a escrever este texto.

Todos os dias eu me faço obrigado a desfrutar das refeições daquele estabelecimento. Pois; vivendo esta vida universitária, praticante do êxodo rural e privilegiado pelas oportunidades do governo, é fatal que eu recorra a uma alimentação mais acessível. Não sendo natural desta metrópole e habitando aqui há poucos meses, não tenho a felicidade de compartilhar o pão e um teto com familiares ou alguém que seja próximo a mim de parentesco. Redobro as minhas forças me alimentando diariamente naquele restaurante; eu e milhares de cidadãos distintos. Destes muitos usuários desta proposta governamental, são poucos aqueles me chamam a atenção.

Estas particularidades tão significativas para mim poderiam me fazer falta caso uma fatalidade ocorresse com alguns daqueles. Posso estar parecendo um pouco pessimista ou, até mesmo, querendo eu que algum mal venha a finalizar algum destes personagens; mas não! Somente quero citar probabilidades que haveriam de findar as atividades destes sortidos cidadãos. São hipóteses que insignificantemente não ocorreriam, mas nunca sabe o que nos espera a cada segundo de vida. Então, a reflexão sobre estes fatos não é desnecessária caso uma hipótese dessas aconteça; seja por um impulso ou descuido.

Imaginemos que por um pequeno descuido, um dos funcionários do restaurante – mesmo que haja todos os cuidados de higiene pessoal – deixe cair um pelo de seu corpo na composição das refeições.  Você pensaria que é inútil um simples fio de cabelo para contaminar uma farta preparação de alimentação. Entretanto, se este mesmo capilar estiver concentrado com um alto nível de algum cosmético, não seria totalmente inútil a probabilidade que algum químico contaminasse um ou, até mesmo, vários usuários do refeitório. A ingestão de um determinado químico correspondente a um cosmético é fatal para alguns seres-humanos. Aliás, o organismo humano não é preparado para o consumo de tóxicos sintéticos; muitos menos os naturais.

Imaginemos então que uma tragédia estaria por vir. Algum destes empregados que estivesse descontente com a política do local e, enfim, ele resolvesse descontar toda aquela raiva envenenando toda a refeição. Um tóxico bastante usado é o etilenoglicol; basicamente, este é encontrado em uma longa escala em anticongelantes automotivos. Usar o produto própriamente dito para o envenenamento seria tolice. O adequado seria utilizar a forma pura do composto químico, pois a fórmula é inodora, incolor e possui um leve sabor adocicado e de consistência soporífera. Certamente, poderia estar disfarçado no molho para salada que são feitos com maionese e mostarda; ou até mesmo usado no cozimento do feijão.

Caso esta imprudência aconteça, as consequências seriam muito maiores que a primeira hipótese. Não haveria quem não se contaminasse. Claro, existe a chance de que pessoas se saiam melhores neste envenenamento do que outras. O histórico de saúde de cada um pode ser determinante para que uma fatalidade venha ocorrer, precipitadamente, após a primeira ingestão. Há, também, a possiblidade de quem não tenha antecedentes de doenças crônicas às adquira a partir da circulação de etilenoglicol no organismo. Neste caso: problemas hematológicos, respiratórios, musculares, metabólicos e, por fim, cardiovasculares poderão acontecer. Na pior das alternativas, o óbito será eminente.

Vale lembrar que erros desta categoria não são somente particulares de países subdesenvolvidos. Recentemente, produtos alimentícios europeus protagonizaram um dos grandes escândalos do ano – o envolvimento de carne equina em produtos que seriam de procedência bovina. Então, por que nos preocuparmos com as remotas situações de intoxicações acima? Não vamos nos limitar a acreditar que algo tão acessível quanto estas refeições sejam os principais alvos de negligência. Indústrias com o número de funcionários superiores a de qualquer restaurante – e com uma vigilância sanitária muito maior – são um grande exemplo que descuidos (ou provocações) também acontecem.

…Mais Um Texto Sem Nome

Espelho

Pessoas comuns, gestos singelos, vazios constantes… Por que é enorme o fascínio por um super-humano que cumpra todas as nossas vontades? Um herói imortal e lhe salvasse de todas as tentativas insanas; mesmo que, esse ídolo arriscasse a vida intacta que tem. A musa sem defeitos – sedenta de múltiplos desejos – e que torna a imaginação do poeta em um turbilhão de sensações. Seria inteiramente Hollywoodiano pensarmos que seríamos felizes juntos. Somos feitos da mesma matéria, filhos da mesma terra e dos mesmos medos… Alimentados pela ilusão idônea de cada dia. Embora, vivamos felizes longe de nossas realizações imateriais. Entretanto, haverá cicatrizes em todos os dedos por culpa de teimosias manifestas.

Ao passo em que caminhamos em busca de uma realidade material, mais próximos ficamos de nos esquecer em ilusões. As circunstâncias nos proporcionam isto. São viagens, amigos, livros, canções, bares, beijos, abraços, coisas que viveremos; novas experiências. Tudo se resume a adentrar de uma forma inocente em algo incomum ao nosso convívio social. Agora não há medos, não há ilusões e depressões. Somente vida – e que seja social, por-favor. O sorriso já não existe em um espelho, agora ele ganha fotografias e memórias próximas. As reclamações contrariaram as vítimas e se resumem em oportunidades. Há vários motivos para cantar, mesmo que não existam canções. Enfim, todo o material humano usado em devaneios morreu, mas ressuscitaram para uma existência – finalmente.

Uma vez me perguntaram onde eu me veria daqui a dez anos. Naquele momento eu vivia meus devaneios, sacralizando minhas emoções e pouco me importava em existencializar* um momento digno. Lembro-me que respondi aquela pergunta com muito mais dúvidas do quando fora feito a pergunta. Vi-me arruinado naquele momento com meus projetos e desejos. Lógico, ninguém quer ser privado de suas imaginações e fantasias, mas houve uma oportunidade de reflexão sobre o que eu estaria fazendo de errado naquele instante. Vi que a pessoa em mim poderia viver. Certamente, as mudanças não surgiram a partir daquele momento. Existiram vários tropeços e cortes superficiais, mas a dignidade pairou sobre uma vida que existia em mim.

*A expressão “existencializar” ainda não é reconhecida na gramática da língua- portuguesa, apesar de tê-la escutado em alguns momentos filosóficos. A palavra inexistente é o título de um poema do escritor, psicólogo e professor Walmir Monteiro.